Leituras de Agosto


Soldados de Salamina - Javier Cercas
Já quando do lançamento de Soldados de Salamina, mais popular romance do espanhol Javier Cercas, a ideia de autoficção tanto não tinha nada de novidade quanto na verdade tinha se tornado uma certa tendência da literatura contemporânea. Fabular em cima da própria vida não é mais ou menos fácil do que criar uma narrativa do zero, mas se tratam de universos mais cômodos, mais próximos do autor. Salamina segue esse caminho mas ao mesmo tempo se revela material de complexidade que vai além da mera metalinguagem. 
Trilhando o curioso e perigoso caminho que margeia ficção e realidade, Cercas conta a história de Rafael Sanchez Mazas, escritor fascista que foi nome fundamental para o estabelecimento do franquismo, a partir do momento em que, fugitivo de um fuzilamento durante a guerra civil espanhola, ele tem a vida poupada por um soldado republicano, mas não se trata de um simples relato biográfico.
Cercas remonta a história de Sanchez Mazas a partir da curiosidade que seu protagonista, o jornalista Javier Cercas, nutre pela figura, agora amaldiçoada pela história, e da sua própria incapacidade de conseguir formatar esse pequeno episódio num romance coerente. Além da óbvia crônica política e comentário sobre as agruras da guerra, um curioso tom de thriller investigativo atravessa toda a história, fazendo com que sua densidade (quem não conhece nada sobre a guerra civil espanhola vai se perceber bastante perdido nos detalhes históricos) seja levemente amenizada. No mais, uma das melhores leituras de 2017 até agora.

24 Horas na Vida de uma Mulher - Stefan Zweig
Só depois de terminar a leitura dessa pequena novela de Stefan Zweig eu fui descobrir que ela foi editada pela Editor Zahar num volume chamado Três Novelas Femininas, e fico com a impressão de que a leitura mais extensa, acompanhada por outros textos no mesmo recorte temático, teria me deixado com uma melhor impressão nesse primeiro contato com a obra do austríaco.
O problema se dá basicamente porque a trama proposta por Zweig -por conta de um caso de adultério ocorrido em seu hotel, senhora de certa idade revela a um desconhecido um fato que marcou seu passado- tem um caráter quase anedótico em sua construção, e o imenso abismo social e moral que dividem aqueles e os nossos tempos ficam marcados de maneira quase caricatural quando se lê esse livro em 2017. Certamente se acompanhado, como ocorre no volume da Zahar, o diálogo com outras tramas poderia ter ajudado na experiência.

História do Olho - Georges Bataille
Como se dialoga, então, sobre um livro não compreendido, porém amplamente sentido, experimentado? Talvez faltem os aparatos técnicos para entender o que Bataille realmente esperava dizer com esta História do Olho, ou quem sabe, como o próprio comenta num posfácio, esta seja uma história nascida de um furor juvenil, que não se deixa domar e portanto não se deixa compreender.
Nos relatos sobre as vidas e sexualidades da dupla de protagonistas, Bataille comenta sobre um sem número de questões, mas a ideia título de uma história sobre o olho, o agente vivo da experiência imagética do mundo, me soa a mais interessante. Ao longo da trama ele é investigado, torturado, e no fim das contas festejado como grande testemunha da fúria e do prazer que move a juventude. Creio não ter entendido nada, mas amei.

Um Estudo em Vermelho - Arthur Conan Doyle
Pra ser muito sincero, não entendi o apelo. Tem lá sua relevância história e estética, mas no geral a sensação era a de estar vendo um filme do Christopher Nolan, onde o personagem explica tudo nos mínimos detalhes a cada três cenas. Tem seus momentos curiosos, divertidos até, mas no geral devo concordar com aqueles que me advertiram sobre Sherlock Holmes ser um personagem bem chato.

A Espuma dos Dias - Boris Vian
Faz muito sentido que Michel Gondry tenha sido o escolhido para dirigir a adaptação cinematográfica deste livro de Boris Vian (que ainda não vi). Muito conhecido por sua visão imaginativa e cheia de efeitos visuais práticos, Gondry certamente transformou o delírio surrealista de Vian em algo curioso -ou pelo menos no âmbito visual.
História de um rapaz quase dândi, ou talvez o termo flanêur fosse mais apropriado, Espuma dos Dias parece antecipar o que décadas depois seria o cinema da nouvelle vague. Jovens franceses se relacionando de forma apaixonada e trágica com a música, cinema, literatura, enquanto navegam por sentimentos confusos e vidas que tomam rumos inesperados a cada momento.

Múltipla Escolha - Alejandro Zambra
Ainda não foi o caso de me decepcionar verdadeiramente com um escrito do meu chileno favorito, mas para além de sua forma ousada e experimentalismo curioso, Múltipla Escolha fica aquém até mesmo de Bonsai, que até então era minha experiência menos animada com o Zambra.
Inspirado na antiga prova do vestibular chileno, Zambra usa a formatação dura e por vezes incoerente de um exame criado pelo Estado para se debruçar sobre seu tão caro tema da ditadura de Pinochet, e como é de costume, usa o período como palco e cemitério de memória, como um tempo que parece muito longínquo ao passo que é cada vez mais pulsante.
Não é a falta de definição entre poesia, conto ou romance que atrapalha Múltipla Escolha, mas talvez a falta de uma maior coerência entre os escritos. Por vezes muito vago em suas divagações, que alterna sem grande fluidez com momentos de puro dedo na cara, a sensação geral é de ter acompanhado um experimento muito inventivo e nada além.

Amuleto - Roberto Bolaño
Apesar de ser mais conhecido por seu monumental 2666, quase todos os escritos de Roberto Bolaño são narrativas bastante breves. Amuleto, publicado depois do também grandioso Detetives Selvagens, é um trabalho curioso de investigação histórica, que muito me lembrou as brincadeiras de Enrique Vila-Matas ao usar personagens reais.
Um tanto mais fiel à realidade que o espanhol, Bolaño se inspira aqui na história da pintora Alcira, que de fato escapou da repressão aos estudantes mexicanos na década de 60 se escondendo por semanas num banheiro da universidade, para contar a história de um sentimento, de um espírito jovem e revolucionário que não se cansa de lutar por seus ideias, mesmo habitando um corpo já velho e cansado.
A total falta de familiaridade com o universo da poesia mexicana pode deixar a leitura algo desafiadora, já que provavelmente os nomes citados não estão ali por acaso, mas a escrita de Bolaño é segura e ousada o suficiente para que Amuleto não seja simplesmente um exercício de imaginação que se agarra nas saias da dramática história mexicana, mas um livro que se sente no dever de enaltecer essa história.

A Imensidão Íntima dos Carneiros - Marcelo Maluf
É possível que o recente contato com outros bons exemplos da chamada autoficção tenha dificultado minha conexão com essa estreia do paulista Marcelo Maluf, mas não se trata exatamente de um mau livro
. Texto completo bem aqui.