Leituras de Julho


As Garotas - Emma Cline
Volta e meia o universo dá um alerta anti hype que precisa ser levado em consideração. Devia ter usado para esse. O texto está aqui.

O Tenente Quetange - Yuri Tynianov
É sempre impressionante se deparar com um texto que mesmo conciso (ou especialmente por conta dessa característica) consegue ser divertido, ácido, complexo e curioso num nível que seus contemporâneos mais robustos não alcançam. Novela sobre a loucura que rege o conceito de tirania, O Tenente Quetange é também sobre a palavra, sobre a escrita, sobre o mundo -neste caso um ambiente militar- redefinido à partir de um descuido ortográfico. Talvez pudesse ser um pouco maior, mas não sei ao certo se o impacto seria o mesmo.

Gabriel Garcia Márquez - Crônica de uma Morte Anunciada
Ao anunciar a tragédia tão minuciosamente descrita ao longo desse pequeno volume logo em sua primeira linha, Gabo deixa claro o tipo de escritor que foi e segue sendo. Pouco interessado em suspenses simples e mistérios genéricos, neste Crônica ele toma emprestado certo sentimento kafkiano de estranheza e incompreensão das ferramentas dos homens e da lei para contar a história de Santiago Nasar e os motivos, ou sobretudo falta destes, para a sua trágica morte. Se fala sobre tradição e crime, mas é sobretudo uma investigação de ares jornalísticos que investiga as esquinas enevoadas da memória e amontoa diversos pontos de vista em busca de uma verdade que provavelmente não existe. Foda.

Opisanie Swiata - Veronica Stigger
Não tenho qualquer referência sobre a obra de Veronica Stigger mas olhando a partir de Opisanie Swiata, novela lançada pela saudosa Cosac Naify, seu texto parece estar interessado em uma investigação sentimental muito curiosa, neste caso formatada como a viagem de um pai em busca de seu filho desconhecido e sua interação com uma miríade de personagens e situações curiosas à bordo de um navio que vem da Polônia para o Brasil nos anos 20. De um apuro visual concretista bastante curioso, Stigger formata o livro com diferentes imagens, cores, e tipografias para intensificar seu caráter fragmentado, o que apesar de interessante é levemente desnecessário, mas nada que incomode. No fim das contas é uma bela história sobre pai e filho, ou sobre algo que poderia ser e não foi.

Quinze Dias - Vitor Martins
A curiosidade pelo trabalho do booktuber me levou a encarar mais uma vez um livro young adult, e fica a certeza de que não é o nicho que mais me interessa. Texto aqui.

Um Coração Singelo - Gustave Flaubert
Creio que as adaptações cinematográficas de Madame Bovary (ainda não lido) me deixaram com uma ideia muito errada sobre Flaubert. Não que seu texto não tenha a pompa e o floreio que eu esperava, mas se trata de uma escrita assustadoramente segura, forte, e o mais próximo que eu já li até hoje de algo que se possa definir como belo. O curto relato da banal e triste vida de Felicidade é contada por alguém muito atento não só àquela personagem mas como a todos os pormenores do mundo que a rodeia e a fazem ser como é. Aparentemente Madame Bovary se tornou prioridade.

História Abreviada da Literatura Portátil - Enrique Vila-Matas
Este História Abreviada é provavelmente a melhor introdução possível para aqueles que desejam se aventurar no mundo de Vila-Matas. Não se trata de ser mais simples que seus volumes maiores, mas a parca duração, que muito dialoga com o encantamento que seus personagens nutrem por tudo aquilo que se diz minúsculo, compacto e, porque não, efêmero ajuda na hora de enfrentar o texto extremamente cerebral do autor. Como é de costume, Vila-Matas abraça personagens e momentos históricos factuais e fábula em cima deles. Neste caso, uma trama mirabolante sobre a sociedade secreta dos Shandys, artistas com uma predileção pelo "portátil", abraça toda a geração que agitava a arte européia nos idos de 20 (adicionem-se aí Duchamp, Man Ray, Tzara, Negri e tantos outros), e imagina um sem número de possibilidades para as motivações e processos criativos desses artistas. Apesar de bastante duro e verborrágico, é um texto de humor bastante fino que ridiculariza e celebra na mesma medida as excentricidades de figuras já conhecidas pelo surrealismo, e outras que viriam a estabelecer nos anos seguintes. O mais importante é não acreditar que nada disso aconteceu de verdade.

Deslocamento - Lucy Knisley
A simplicidade do traço e do texto de Lucy Knisley são provavelmente as maiores responsáveis pela maneira suave como se atravessa Deslocamento sem maiores problemas. Relato biográfico bem-humorado de um cruzeiro onde fez as vezes de cuidadora dos avós já bastante debilitados, Knisley pensa sobre velhice, juventude, morte, e memória sem grande profundidade mas de maneira bastante afetuosa.

A Festa de Babette - Karen Blixen
Confesso que minha pesquisa pós leitura não foi muito profunda, mas a imensa maioria dos textos sobre esse famoso conto de Karen Blixen falavam quase que exclusivamente sobre metáforas religiosas, a ideia de sagrado e martírio na perseverança que ronda a francesa Babette em seu exílio na Noruega como criada de duas irmãs religiosas. É uma leitura possível, mas o discurso final da protagonista sobre sua condição de artista, da gastronomia nesse caso, parece resignificar, ou ao menos alterar muitas das intenções do texto. Sim, existe algo de sagrado ali, mas não necessariamente de divino. A artista, que até o fim se abraça na crença do poder de seu trabalho, parece ter o mais inquebrável dos espíritos, e isso vai além do que qualquer dogma pode oferecer.