A Imensidão Íntima dos Carneiros


É possível que justamente por ter lido recentemente dois bons exemplos da dita autoficção, gênero muito popular na jovem e contemporânea literatura brasileira (a saber, A Resistência, de Julián Fuks, e A Chave de Casa, de Tatiana Salem Levy), esse contato com o primeiro romance do paulista Marcelo Maluf tenha soado um pouco insatisfatório. A Imensidão Íntima dos Carneiros, título encantador e que faz jus à trama, é um amontoado de camadas, sensações, pontos de vista e subtramas que convergem todas para a figura do autor. Neto de Assad, imigrante libanês que sempre escondeu com vigor sua história pregressa, Marcelo recebeu o pesado fardo dos segredos familiares de seu tio Sami, quando da morte de seu pai. Como forma de combinar sua perplexidade e seu desejo de dar um fim àquelas memórias tão violentas, Marcelo escreve um livro onde viaja no tempo para lugares tão distintos quanto os últimos dias de vida do avô, que não chegou a conhecer, em Santa Bárbara do Oeste, interior de São Paulo, ou a pequena aldeia de Zahle, no Líbano, onde foram criadas tantas tradições e segredos familiares.

Auxiliado por essa característica íntima, por esse anseio de abraçar certo sentimento abstrato de família e fraternidade, talvez a maior beleza de Imensidão esteja em seu caráter quase fabular. Não imagino se Maluf efetivamente pretendia canalizar uma espécie de Sherazade e suas Mil e uma Noites, mas é fato que para além das pequenas historietas e causos que insere aqui e ali nas falas de seus personagens, seu próprio livro soa como uma parábola, um dito que poderia ser passado de geração em geração. A tragédia presenciada pelo avô em 1920 e que definiria toda sua vida dali em diante não é destituída de sua gravidade mas também não é descrita com grande distanciamento dos outros momentos mais fantasiosos da narrativa, que vão desde carneiros falantes até entidades com poderes mágicos. Como o próprio Maluf fala em dado momento, está é uma história sobre um medo que toma formas distintas e atravessa décadas, um medo que se inicia num momento específico e atravessa os anos se infiltrando no sangue dos homens daquela linhagem, e cabe ao escritor e a seu livro darem um fim a tal sensação.

Ou seja, Maluf toma o caminho da ancestralidade de uma maneira um pouco mais mística e reverente aos costumes daqueles que vieram antes dele do que se costuma ver no gênero da autoficção mas isso não parece ser suficiente para que as questões de abarcar um tema e um desejo tão grandiosos num primeiro livro podem acarretar. Ainda que seja uma leitura bastante rápida (não necessariamente ágil), o texto parece cambalear um pouco para encontrar tom e ritmo, e no fim das contas a dor do presente, a viagem ao passado, as memórias descritas pelos fantasmas de pai e avô, as reflexões sobre futuro, tudo soa como uma grande massa disforme que luta para encontrar coerência. Enquanto porções isoladas, no entanto, é tudo muito bonito.
A Imensidão Íntima dos Carneiros (★★★)
Marcelo Maluf, Editora Reformatório, 2015