Corpo Elétrico e Bingo

Existem momentos ao longo de Corpo Elétrico em que toda a miríade de coadjuvantes (termo muito injusto para defini-los) se transforma numa só vida, num organismo que fala com entonações e intenções diversas, atira desejos para caminhos opostos, mas que só consegue existir assim, nessa confusão fonética e estética. Talvez sejam esses momentos que dão nome ao filme de Marcelo Caetano, porque não existe nada de realmente cativante (ou elétrico, como preferir) no que diz respeito à trama principal de seu longa. A história e a condução contemplativas que observam com muita parcimônia a vida do costureiro/estilista gay e nordestino que ganha a vida numa confecção em São Paulo e se rende a amores e incertezas nas relações com seus colegas de fábrica e contatos afins pode encontrar posição ilustre nos corredores do tão superprotegido "cinema contemporâneo brasileiro", mas se colocado ao lado de um Boi Neon, para um exemplo de filme recente que dialoga com ideias de masculinidade, sexualidade e trabalho muito parecidas, as ideias de Marcelo Caetano se revelam muito modestas, quase sufocadas. De certa forma ambos me lembram bastante Falsa Loura, do saudoso Carlão Reichenbach, que em todo o seu delírio camp falava muito mais sobre o trabalhador, o homossexual, e o sonho de uma utopia que o caráter sisudo destes mais recentes não abraça.
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De certa forma, as vontades e ritos que aparecem aqui com mais evidência (aqueles do amor e do trabalho), soam como eternos esboços de um filme que se avizinha, que parece estar sendo preparado num terreno próximo, um filme em que a câmera vai se livrar de vez da maldição contemplativa deste tão festejado "novíssimo" cinema e adentrar esses corpos, que se querem energéticos e vez ou outra tem a liberdade de sê-los. É curioso (ou na verdade apenas óbvio) que tenha sido justamente Corpo Elétrico, ou mais especificamente meu desagrado em relação a ele, o pivô de uma situação esdrúxula em que me vi confrontado como alguém que finge refino e dificuldade em ser agradado. Muito se acredita que essa herança, esse ranço coronelista de 'não poder falar mal de cinema brasileiro' está relegada apenas a rodas mais específicas do universo cinematográfico -o que como muito bem comentou um colega professor semanas atrás, minam qualquer possibilidade de uma verdadeira 'crítica cinematográfica brasileira'-, quando na verdade é um sentimento protecionista que se viu fomentado em um sem número de espaços de discussão, sobretudo na internet. Para uma definição mais clara, fale o que quiser do cinema brasileiro, só tome cuidado para não ser pego.
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A discussão toma vias ainda mais interessantes quando se pensa que um trabalho de "base", uma sensibilização do grande público para o cinema que tem sido feito hoje no Brasil parece começar a acontecer apenas agora. Muito se reclamava sobre o brasileiro não prestigiar seu próprio cinema e, se o fazia, era invariavelmente através das neochanchadas da Globo Filmes, mas verter um sem número de títulos do famigerado contemporâneo cinema nacional sem uma crescente de sensibilização e atração de público para experiências cinematográficas mais diversas (as experiências de Que Horas Ela Volta e Aquarius são bons exemplos) soa algo arrogante. É curioso, por exemplo, que Bingo - O Rei das Manhãs, estreia do montador Daniel Rezende na direção não esteja sendo mais comentado. Não se trata da reinvenção da roda; Rezende se agarra com tanta firmeza à tradicional cartilha da cinebiografia com suas ascensões, glórias, quedas e redenções que até mesmo a recriação de época de uma televisão brasileira oitentista cai para um discreto pano de fundo frente ao vigor do palhaço composto tão bem por Vladimir Brichta.
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Creio ser inegável dizer que estamos frente a uma produção nacional com alcance e capacidade para fazer o mesmo que os já citados filmes de Mendonça e Muylaert fizeram pelo cinema "sério", mas tomando a via contrária. Bingo é o que muito se descreve como diversão esquecível, como isto fosse alguma pecha pejorativa, e parece ter ciência e orgulho de sua condição. Ainda que desconjuntada na forma, a história de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do famoso palhaço Bozo, é contada com vigor, com uma apreensão do corpo a partir da câmera (que felizmente jamais se coloca como um olho genérico inspirado por má televisão, nem como o observador passivo e pouco inquisitivo do já citado cinema), com um pé que ameaça pisar no kitsch e ganha bastante com essa dúvida. Talvez não seja o filme que serve à certa tendência de nosso cinema, mas certamente é um filme que deveria ser melhor analisado, sobretudo de fora para dentro.