Quinze Dias


Assim como ocorreu com todos os filhos de 1991, minha adolescência se deu inteiramente durante a primeira década dos anos 2000, que para além de todas as outras questões políticas e sociais envolvidas, ficou marcada como o período em que a internet e a potência da tecnologia em nossas vidas se desenvolveu em velocidade absurda. Uma das memórias que tenho desse período enquanto adolescente gay que não tinha muitos meios de se conectar com seus iguais e ainda não tinha muitos produtos direcionados para seu nicho é a de ler "contos eróticos" nas dezenas de comunidades relativas ao tema que existiam no Orkut. Apesar de pecha de erótico, as histórias publicadas de maneira quase folhetinesca pelos usuários estavam muito mais inclinadas para uma versão homossexual dos romances de banca, aquelas famosas histórias de Biancas, Julias, e Sabrinas frágeis e inseguras que encontram num homem forte e poderoso tudo aquilo que precisam. À época isso era tudo que eu precisava, um pouco de fantasia e idealização, mas o tempo passa e um pouco de refinamento narrativo, mesmo na hora de ouvir um romance bobo, faz diferença (tem quem siga gostando dessas coisas, é claro).

A literatura young adult lgbt feita atualmente não caminha para muito longe daqueles textos que eu lia aos 13 anos. Ainda que não seja uma área com a qual eu me identifique, por uma miríade de razões, eu tento dar chance a esse gênero vez ou outra, mas o resultado é quase sempre o mesmo. Somos apresentados a um personagem desconfortável consigo mesmo, por razões que vão desde sexualidade até aparência, e sua metamorfose em alguém de auto estima saudável, mudança essa geralmente promovida pela chegada de um outro personagem que faz o protagonista "aprender a se amar". Os desdobramentos variam entre romance, amizade, ou mesmo cumplicidade familiar, mas a estrutura raramente vai ser outra. Acredito que a leitura de um livro que reitere noções óbvias de amor próprio é um exercício muito importante de ser feito quando se está numa das mais complexas fases da vida, sentimentalmente falando, mas assim como o Felipe, protagonista deste Quinze Dias percebe ao começar a folhear um dos livros de sua estante, ler a mesma história uma dezena de vezes é apenas enfadonho.

Topei com o Vitor Martins, seu canal, e a eminência do lançamento de seu primeiro livro quando investigava o youtube em busca de resenhas para Uma Vida Pequena, livro que guarda um lugar nas minhas melhores leituras deste 2017. Notei que o livro fugia um pouco do recorte geral do canal do rapaz, mas me interessei pelos sentimentos confusos que ele tinha por aquela história, reação parecida com a minha. Quando do lançamento do livro, fui atrás, li em um dia, e a cada página lida aquela sensação já citada de estar lendo um dos contos tão importantes para mim uma década atrás voltava, com a diferença de que estou uma década à frente. Existem diferenças importantes, é claro. A grande questão que ronda Felipe não é sua sexualidade, que ele compreende e aceita bastante bem, mas o seu peso. Torturado pelos colegas de escola com tantas chacotas quanto possíveis para uma pessoa gorda, Felipe se retrai da convivência com qualquer pessoa que não a sua mãe, e entra na famosa espiral do 'nunca serei amado'. Suas barreiras de segurança são quebradas quando a mãe aceita um pedido da vizinha e recebe Caio, o filho dela e não surpreendentemente a grande paixonite de Felipe, por quinze dias durante as férias escolares.

Um problema fundamental que recorre nesse tipo de trama é certa falta de profundidade e dimensão nos personagens que circundam o protagonista. Conseguimos conhecer Caio com detalhes relevantes, mas raras são as passagens em que ele tem espaço para ser Caio e não apenas a paixão de Felipe que fará ele colocar suas questões em perspectiva. Segundo o olhar apaixonado do protagonista, o rapaz é magro, bonito, simpático, e só não chega a ser o príncipe encantado da Sabrina porque, para ele sim, a sexualidade ainda é uma questão e a superproteção da mãe não deixa o caminho da aceitação mais fácil. Beca e Mel, melhor amiga de Caio e namorada desta, respectivamente, surgem como exemplos do 'vai melhorar'. Figuras que já atravessaram com sucesso as penúrias da adolescência e acenam do outro lado, lembrando que por mais que tudo pareça perdido, existe uma vida pós escola onde as coisas ganham nova potência.

Creio que seja um bom momento para salientar que eu faço estes comentários partindo muito menos de um lugar de "crítico" do que simplesmente de um lugar de possível falta de identificação com o material e com os caminhos que ele toma. Martins escreve muito bem, seja porque é um leitor ávido ou porque estudou a fundo como estruturar um romance young adult, provavelmente as duas coisas. Estão lá as piadas e devaneios com cultura pop, os momentos emotivos sobre memórias familiares e a importância de lutar para ser respeitado, e sobretudo a voz em primeira pessoa, por vezes enervante, mas sempre coerente com seus desejos e temores. Obviamente existe um quê de idealização, mas é um livro que talvez tivesse me ajudado em alguma questão se eu o tivesse encontrado aos treze anos, antes de ser tragado pelos contos onde todos são brancos, lindos, e eventualmente serão salvos de suas mazelas pelo menino mais lindo da escola. Mas tanto tempo depois não resta muito o que apreciar.

Quinze Dias (★★)
Vitor Martins, Globo Alt, 2017