As Garotas

Em algum momento do meu caminho até a leitura, ou mesmo até a conclusão deste As Garotas, primeiro romance da norte-americana Emma Cline, algum de meus filtros naturais falhou violentamente. Passei por cima do imenso hype que o mercado literário colocava em Cline ainda que o corpo de sua obra antes daqui não fosse lá tão expressivo, no fato dela ser a atual queridinha do agente literário-superstar Bill Clegg e consequentemente da Random House, ou simplesmente na aura de young adult que se disfarça de outra coisa para capturar públicos mais velhos que o público parecia emanar. A principal responsável pela derrubada dos filtros foi a premissa: aparentemente As Garotas trataria da vida de uma adolescente atropelada pelas questões de seu crescimento e sexualidade na Califórnia dos anos sessenta, e sua eventual conexão com um grupo que em muito remete àquele de Charles Manson, líder carismático e porcamente sedutor no combo. Fato é que, ainda que presente e parte relevante da história esse universo é quase um sopro; As Garotas é basicamente uma garota, Evie Boyd, e Cline não tinha qualquer desejo de trilhar o caminho do suspense, ela mantêm os pés firmes na seara do romance de formação, que sendo o ambiente populoso que é, não permite concessões de pouco brilhantismo àqueles que pretendem se sobressair.

O problema, no entanto, reside mais em texto do que em narrativa, ou pelo menos numa primeira instância. Muito festejada por sua escrita profunda e capaz de esmiuçar ferozmente as dores e desejos de uma adolescente confusa, a estilo de Cline por pouco não resvala na novela erótica, o que certamente não se deve à confusão de uma moça de quatorze anos. A chegada de Evie ao rancho do culto enfeitiçada pelo desejo que sente pela misteriosa Suzanne, por exemplo, viaja de cena curiosa até um amontoado de clichês cansados sobre espiritualidades, liberdades, e a figura mítica e perigosa do líder. Líder esse que jamais se define como propriamente sedutor, patético, perigoso ou qualquer outro adjetivo que realmente justifique o poder que ele incide sobre o grupo de pessoas, em especial garotas adolescentes, que partilham de sua comuna. A impressão que surge quando dessa virada de trama é que o livro estaria muito melhor servido se o universo dos cultos e assassinatos na Califórnia sessentista fosse tão somente o espaço psicológico que Evie habitasse ao se debater sobre seu crescimento, ou sobre a relação cada vez mais complexa com a mãe, ou ainda sobre seus desejos sexuais que viajam por caminhos que ela apenas começa a compreender. Usar esse universo de permissividade e liberdade como palco não faz nada além de didatizar as experiências da garota, e portanto tirar grande parte de sua força.

Os capítulos passados em tempo presente, e desses especialmente os finais, narrados por uma Evie madura rememorando com amargor todas as possibilidades de sua vida, revelam com mais veemência o aparente real desejo de Cline para com seu livro. As Garotas se quer uma história sobre a construção de uma identidade feminina e como isso começa a partir da forma como elas são tratadas desde a infância, como são manuseadas como um commodity ou uma peça de decoração que pode ser trocada, e as formas como podem escolher lutar contra os lugares onde são encaixadas, seja se infiltrando num universo dito masculino e delimitando seu espaço de maneira insidiosa, ou simplesmente usando a força bruta. Talvez se essa abordagem não fosse pincelada aqui e ali como grande trunfo anedótico ela teria o poder que a autora parecia almejar. No mais, preciso prestar maior atenção em meus próprios alertas anti-hype.

As Garotas (★★)
Emma Cline, Intrínseca, 2017