Leituras de Abril e Maio

Abril e Maio foram meses de leituras tão esparsas (ainda que algumas bem potentes e interessantes) que acabei esperando para condensar os dois num apanhado só. Também foi mês de algumas desistências; algo que não costumo fazer, mas quando a relação com um livro te deixa sem vontade de ler mais nada de tanto desgosto fica difícil (estou falando com você, Deuses Americanos). Junho, por sua vez, é o mês de iniciar a leitura de Vida e Destino, tijolão do Vassili Grossman que faz parte do Desafio Livrada e que eu espero dar conta num tempo aceitável, o que pode prejudicar outras leituras, veremos. Aí vai a lista.

Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour: uma apresentação - J.D. Salinger
Muito geralmente (excluindo-se os mega calhamaços) eu preciso de três a dez dias para terminar um livro de tamanho médio, esteja gostando ou não dele. Então o fato de ter levado quase um mês para finalizar as 181 páginas pocket destas duas novelas de Salinger diz bastante sobre minha relação com o livro, e com o autor de modo geral. O Apanhador no Campos de Centeio foi das experiências mais enervantes (no mau sentido) que tive com qualquer tipo de arte, o que infelizmente se repetiu nesse caso. Não se trata de serem maus textos; 'Cumeeira' em especial é uma olhadela muito interessante na vida de Seymour Glass através das desventuras de seu irmão Buddy num dia quente em Nova York, mas 'Apresentação', elegia à figura de Seymour narrada pelo irmão, tem um dos personagens mais pedantes e insuportáveis que já precisei enfrentar. A discussão de Salinger sobre os deveres e lugares habitados pelo escritor é de fato muito interessante e desenvolvida de maneira brilhante, mas é preciso aceitar a companhia de uma pessoa estupidamente chata para entrar no debate.

Caninos Amarelados - Mario Filipe Cavalcanti
Coleção de contos secos e ferozes sobre o caráter animalesco da vida numa grande metrópole, este volume tem uma porção de vozes estranhas, curiosas, falando incessantemente sobre suas vontades e memórias, que por vezes soam um pouco reverentes demais às referências do autor. Sólido; promete um futuro interessante para ele.

A Maça Envenenada - Michel Laub
Diário da Queda está com posição assegurada na minha lista de livros prediletos da vida desde que topei com ele em 2016. Não era de se espantar que a leitura de alguma outra obra de Michel Laub rendesse grande expectativa, e tê-la frustrada foi muito desagradável. Não que seja propriamente ruim, mas Maçã Envenenada não tem nem a ternura nem a brutalidade de seu predecessor ao olhar para o microcosmo de um coração e uma mente masculina. Por alguma razão, Diário me lembrava aquele clipe do Wax em que vemos um homem em chamas correr desesperado, filmado em câmera lenta até desaparecer numa curva como nunca tivesse sido importante. Maçã não me lembra nada em particular, nem mesmo de si próprio. A trama do jovem confrontado com amor, morte, crime e castigo é escrita de forma competente, mas quase nada envolvente, nada marcante, nada como um homem em chamas. Espero ter melhores momentos com o Laub.

A Droga da Obediência - Pedro Bandeira
Meu primeiro (e único) contato com Pedro Bandeira foi durante a pré-adolescência. Junto da série Vaga-Lume, seus mistérios eram grandes responsáveis pelo desenvolvimento dos vícios de leitura de muitos jovens ali pelos anos 80 e 90, e provavelmente ainda hoje em dia. Por nenhuma razão em especial, resolvi reler esta primeira e mais famosa aventura dos Karas, e é divertido notar como coisas que me pareciam muito sombrias e surpreendentes aos dez anos soam bobas hoje em dia, ainda que igualmente divertidas. Não é o mais intricado dos mistérios, mas surpreendentemente promove um discurso atualíssimo de desobediência civil e combate às opressões.

Carne de Canhão - Agustín Arosteguy
Já devem fazer uns dois ou três anos que esse minúsculo livro aparatou na minha estante, e não consigo me lembrar qual foi sua origem. Fato é que, tão misteriosamente quanto surgiu, também não sei explicar o que me motivou a lê-lo. Talvez o fato de ter dado uma folheada rápida e descobrir que a tradução era de Julián Fuks, autor que gosto muito, ou a interessante experiência multimídia proposta pelo autor, que indica links de músicas que de certa forma servem como introduções para os curtos capítulos. Pois bem, para todo o cuidado que Agustín Arosteguy parece ter tido com o conceito e a forma de sua novela, Carne de Canhão é no máximo bem-intencionado. Aparente livro de memórias de um jovem que vem do interior da Argentina para estudar em Buenos Aires, a trama logo se reinventa como uma investigação do narcisismo, do vício contemporâneo pela imagem, pelo estrelato, pela imortalidade, e não é particularmente eficaz nessa escolha. Além das digressões técnicas sobre os mais variados temas que pouco acrescentam ao final de cada capítulo, Carne de Canhão realmente parece ter desejo de ser mais que uma novela, tão pomposos soam seus temas e cenas. Não que eu quisesse ler mais, mas poderia ser maior.

Como se estivéssemos em palimpsesto de putas - Elvira Vigna
'Coisas que os homens não entendem', título de um outro romance de Elvira Vigna, serviria como uma definição perfeita do que acontece durante o maravilhoso 'Como Se Estivéssemos...'. Acompanhado os relatos da narradora sobre as cansadas, monótonas, e machistas aventuras relatadas por um colega de trabalho, que chegam até nós através do texto duro e da cronologia caótica de Elvira, vamos percebendo como o mundo do homem-branco-hétero-de-classe-média é raso e ridículo. Poucas vezes vi um texto que consegue se firmar como firme, poético, experimental, delicado e tantos outros adjetivos ao mesmo tempo. Como sua autora, é bravo pra caralho.

Seminários dos Ratos - Lygia Fagundes Telles
A leitura dos trabalhos de Lygia me rendeu uma curiosidade sobre o motivo dela não ser tão popular quanto Clarice Lispector. Tão inquietante e profunda quanto a colega, Lygia tem a "vantagem" de ser menos hermética que Clarice, e ainda num livro complexo em que questiona ideias de poder, autoridade, e masculinidade como este Seminário dos Ratos, ainda consegue ter uma inabalável ternura para com seus complexos personagens. Gostaria que ela fosse mais (e melhor) lida.

Meia-noite e Vinte - Daniel Galera
A decepção com esse mais recente escrito do Galera me fez escrever um pouco, leia aqui.

Um Útero é do Tamanho de um Punho - Angélica Freitas
Li este 'Útero' sem grande pesquisa prévia, mesmo porque seu título faz um trabalho bastante claro em explicitar que ali se investiga o nascimento e pertencimento da mulher, e meu veredito foi de que se tratava de um exemplar regular de poesia contemporânea. A visão se mantêm, mas a surpresa ao perceber as reações apaixonadas à escrita da Angélica me fez notar que é um livro importante para um mulher leitora, e talvez minha percepção esteja um pouco prejudicada pelos privilégios masculinos. Claro que não é apenas uma mulher que poderá entender as questões colocadas pela autora à propósito desse universo, mas certamente quem vive essas dores sentirá um impacto muito maior ao se ver representada ali em suas complexidades. Daqui, eu sigo achando que é um pouco mais óbvio e genérico do que acredita ser, mas ainda interessante.

Bartleby, o escrevente: Uma história de Wall Street - Herman Melville
Tem vezes que você pensa que não vai dar conta de falar sobre um livro simplesmente porque, apesar de ter compreendido a coisa toda em linhas gerais, ele parece tão enigmático, tão distante das fronteiras do seu universo conhecido, que logo se trata mais de desvendar do que discutir. É mais ou menos o que acontece com Bartleby, especialmente no que diz respeito a seu personagem título. Seja Bartleby um rebelde, um louco, um ser sobrenatural, ou simplesmente uma pessoa tão cansada que prefere se negar a tudo, é fato que ninguém deu conta de compreendê-lo totalmente, e só isso já torna o livro de Melville fascinante. Numa nota mais pessoal, fiquei curioso pela falta de leituras analisando uma possível homossexualidade do advogado que narra a tragédia do copista, já que a história se passa num universo quase destituído de mulheres, onde as noções de masculinidade são observadas por espectros tão diversos. Mais um mistério.