Joe Speedboat


Não muito tempo atrás eu li Uma Vida Pequena, da americana Hanya Yanagihara. Além de também ser, de certa forma, uma trama de coming-of-age, ou romance de formação, como prefira, outra grande semelhança entre aquela história e o Joe Speedboat de Tommy Wieringa era o fato de ambos circularem em torno de pessoas com franca debilidade motora. É verdade que as razões para a dificuldade do protagonista de Hanya eram bem mais sombrias do que aquelas que roubaram Fransje Hermans da chance de ter um futuro -ou assim acredita ele-, e o colocaram num coma de 200 dias seguido do confinamento à uma "charanga", carinhoso codinome de sua cadeira de rodas. E talvez esteja nesse tom francamente leve, que por vezes beira a tragicomédia, que o texto do autor holandês não caia completamente no estereótipo do 'livro sobre como a amizade nos ajuda a vencer obstáculos'. Obviamente existe o trágico e o soturno na vida de alguém que foi forçado a se tornar espectador do mundo, mas isso não precisa resumir a experiência dessa pessoa no mundo.

A existência pacata e provinciana de Lomark, cidade cujo mascote é um galo que teria livrado o local de um conflito violento, começa a ser modificada enquanto Fransje ainda dorme e o caminhão de mudança da família de Joe Speedboat destrói o muro de uma casa, matando seu pai e despejando a figura algo anarquista no meio daquela comunidade. Entre os hobbies mais pronunciados do rapaz estão a mecânica, engenharia, e a construção de bombas que usa para apavorar moradores. A dicotomia entre a iluminação que emana do descontrole calculado de Speedboat e a vida confinada de Hermans é raramente tratada com maniqueísmo, mesmo porque a única voz a ser ouvida é a do protagonista, e se a princípio ele realmente sente que o amigo é a materialização de todas aquelas coisas que ele jamais será, o desenrolar da vida e das relações dos dois permite que tanto eles quanto a miríade de personagens que circulam em seu entorno ganhem muito mais camadas.

É um pouco decepcionante, no entanto, notar que o caminho escolhido por Wieringa para acentuar o amargo que essa relação causa na vida de Fransje seja um triângulo amoroso que, verdade seja dita, é desenvolvido com desvelo desde que os rapazes são adolescentes e constroem um avião para sobrevoar a casa de sua amada PJ (ainda que nesta época a atenção se concentrasse na mãe da garota) e desemboca na vida adulta. É impossível ignorar o peso que um envolvimento amoroso -ou a falta dele- tem para um jovem que foi privado desde muito cedo de experimentar o caminho natural de sua sexualidade, o que explica o rancor de Fransje com todos aqueles que se aproximam da angelical sul-africana que migra para sua vila, mas ainda parece muito limitador afunilar todas as questões propostas pela história na figura de PJ, no impacto que ela causa, na personalidade que ela esconde. Especialmente depois que somos introduzidos à instigante entrada de Fransje e Speedboat ao mundo da luta de braço; nunca vi um esporte tão específico ser descrito com tanta energia e minúcia.

Felizmente não é como se esse cambaleante terço final tirasse o brilho das personagens de Wieringa, que são seu grande trunfo. A observação precisa da vida em Lomark feita por Fransje em seus extensos diários são um belo exemplo de certo olhar que radiografa uma vida e uma sociedade. Estão lá as vidas tediosas dos meninos que só tem o dique, o bosque, e a balsa de transporte como cenários, os dramas familiares dos pais e pais de amigos, os lanches oferecidos no único restaurante da cidade quando ocorre um falecimento, e a apreensão com a construção de uma rodovia que promete sufocar a cidade atrás de uma barreira acústica. A visão historiográfica -e geralmente bem-humorada- de Fransje se torna ainda maior que sua complexa amizade com Speedboat e acaba se assimilando com sua própria vida. Os dois, e todos os outros, fizeram muitas coisas e ainda terão a chance de fazer várias outras, ainda que ninguém preste atenção neles.

Joe Speedboat (★★★★)
Tommy Wieringa, Rádio Londres, 2016