Um Gato Chamado Borges

Talvez esses escritos saiam meio entrecortados, um pouco confusos, mas escrevo isso sem planejamento (como quase sempre acontece, sendo franco), e com um amontoado de perguntas não muito bem respondidas. Enfim, acho estranho quando alguém se presta a criticar qualquer tipo de arte e inicia seu comentário com 'não sou crítico, mas'; pois se é óbvio que a crítica com embasamento teórico se separa da resenha opinativa por seu caráter aprofundado e verdadeiramente investigativo, a pura opinião de alguém dissociado de questões acadêmicas é igualmente válida. Meu ponto é: uma crítica (ou resenha, que seja), é válida sempre que isenta de reverência ao material investigado. Pensava nisso enquanto lia esta estreia do Vilto Reis, nome que conheci em relativamente recente visita ao site Homo Literatus, onde ele é editor. Meu interesse na literatura brasileira contemporânea acabou me colocando no caminho de Um Gato Chamado Borges, romance financiado por Vilto através de um crowdfunding que proporcionou a abertura da Nocaute, sua própria editora.

No posfácio de Borges, o autor se apresenta brevemente e desvela suas referências: estão lá Daniel Galera, Rubem Fonseca, Paul Auster, Haruki Murakami e Alfred Hitchock, além do argentino que dá título ao volume, nomes bastante identificáveis ao longo da trama que enreda pinceladas policiais e detetivescas com um universo de pretensa filosofia e fumaça de cigarro. Parece honesto deixar tão claras as fontes em que se bebe, ainda que seja amplamente desnecessário, dado o problema que pode acarretar; sabendo quem são os mestres, se cobra bem mais do pupilo, e aí Borges encontra alguns problemas. Especialmente porque, para um livro que passou 31 dos seus 34 capítulos num andamento morno em que as percepções de vários personagens se cruzam em torno dos misteriosos suicídios em massa que assolam os invernos de São Brandão, cidade pesqueira no sul do país, os momentos finais parecem ter sido retirados de outro (e muito mais curioso) texto. O autor abraça um caminho algo perigoso de reviravoltas metalinguísticas e realismo fantástico mais acentuado, que não exatamente se sustentam como grande revelação, ou mesmo "final aberto", como algumas resenhas comentam, mas que de fato se revela uma porção muito mais instigante que todo o resto do livro. Às vezes me vinha a impressão de que a primeira porção foi escrita seguindo uma régua e uma métrica própria daqueles textos genéricos que pipocam pela internet com títulos como "estrutura para um romance de sucesso", e só aos 45 do segundo tempo o autor resolveu subverter os preceitos. Ousado, se foi o caso.

O que provavelmente me afasta de Borges com mais veemência é sua miríade de personagens algo arrogantes e levemente inverossímeis em sua intelectualidade (provavelmente a porção inspirada em Rubem Fonseca), que vez por outra apresentam alguma inconsistência, como por exemplo a personalidade do protagonista João Meireles, que varia do crente ao descrente, do investigador astuto ao aculturado ignorante, do atencioso ao desagradável, sem as pinceladas que transformariam isso na simples observação de uma pessoa em suas complexidades, mas aos solavancos, variando intenções a cada virada de página e deixando o personagem francamente disforme; o que se repete em grau menor com alguns outros nomes da história. Dia desses eu me decepcionei um pouco com o último livro do Galera e comentei que talvez fosse falha minha, talvez o exagero do texto fosse uma leitura farsesca do mundo, uma visão aumentada. Algo parecido pode ter acontecido com o livro do Vilto, daí aquele primeiro parágrafo sem vergonha onde tento maquiar minha falta de embasamento teórico para discutir literatura. Se a ideia fosse ser objetivo eu diria o seguinte: pelo menos li rápido.

Um Gato Chamado Borges (★★)
Vilto Reis, Nocaute, 2016