Free Fire


Não sei exatamente quando foi que incuti em minha memória essa ideia de que Ben Wheatley é um grande cineasta. Kill List é um filme assombroso de tão bem construído, com aquela dose bruta porém refinada de violência que é tão difícil de se ver por aí, mas meio que ficamos nisso aí. Olhando os créditos do rapaz eu percebo que tirando seu maravilhoso filme de 2011, todos os outros títulos de sua filmografia variam entre o felizmente curioso e o plenamente esquecível; o que me abranda um pouco a dor por ter achado Free Fire um amontoado de qualquer coisa.

A ideia é bastante simples: nos anos 70, uma transação de armas entre duas "gangues" dá errado quando os membros menos intelectualmente favorecidos de cada lado se envolvem numa discussão e daí o título se torna literal, com balas zunindo baixo durante praticamente 60 dos 90 minutos de duração. Por si só a ideia de conceder ares de comédia pastelão a um pretenso exemplar do  "másculo" e tenso cinema de ação setentista já soaria ousada, mas Wheatley aplica o conceito num filme confinado a um único espaço, um galpão abandonado com ares de arena de paintball, e o que se desejava esperto soa apenas um pouco cansado, quase bobo.

O absurdo da situação é um ponto curioso, impossível negar. Um punhado de bandidos cuja categoria é bastante duvidosa recebem balas aleatoriamente e seguem de pé, ainda que avariados, atirando à cata de um alvo que por vezes nem precisa ser de linhas inimigas, e nisso há certo charme que flerta discretamente com ideias de teatro do absurdo, talvez. O problema é que não há tempo nem espaço para desenvolvimento de personagem além das tiradas espertas que somam aqui e ali um detalhe à personalidade de cada um, o que deixa todos eles francamente sem qualquer importância. Se há alguém à se acompanhar com um pouco mais de atenção é o histérico personagem de Sharlto Copley, que usa todos os estereótipos de sua África do Sul natal em função de um traficante absolutamente covarde.

É um absurdo diferente daquele experimentado por Wheatley em Turistas ou A Field in England (trabalho de época muito mais ousado, inclusive); filmes que não fugiam da pecha de "exercícios de estilo", e assumiam suas limitações com muito gosto. Free Fire parece estar o tempo todo olhando para um lugar muito romântico, quase de paixão cinéfila, e não sabendo empregar bem seus recursos. Serviu pra me lembrar que o colega Wheatley é, até agora, um tremendo one-hit wonder.

(★★★)
Ben Wheatley, Reino Unido/França, 2016