Meia-noite e Vinte

Ainda é uma memória bem clara pra mim o período, ali pelos idos de dois mil e sete, que topei com Até o dia em que o cão morreu, romance de estreia do Daniel Galera. Era por volta das três da tarde e eu fazia minha ronda semanal na Pernambooks, agora falecida livraria que ficava na Rua Barão de São Borja, coração do bairro da Boa Vista, no Recife. Eu devia ter em torno de quinze anos, e estava na fase mais leitora da minha vida até então. Os anos de Harry Potter haviam passado num flerte discreto, e eu me dedicava a uma investigação feroz da então contemporânea prosa brasileira. Foram anos de Joca Terron, João Paulo Cuenca, Cecília Giannetti, Daniel Pellizzari, Antonio Prata, Chico Mattoso, e nenhum deles fazia comigo o que Galera conseguia fazer. Livro de um fôlego só, Cão era repleto de temas que eu ainda não compreendia muito bem em sua complexidade: estavam lá a inadequação, a incerteza, o ódio, o amor, e tantas outras coisas que eu conhecia, só não sabia nomear. Faço essa introdução só para explicitar os motivos pelos quais a leve decepção com a leitura de Meia-noite e Vinte me foi tão desagradável.

Se colocadas lado a lado, as vozes do Galera neste e naquele livro poderiam até passar por escritores diferentes, e eu não falo isso num tom totalmente congratulatório de felicitação a um escritor que amadureceu e encontrou sua forma e estilo. Se Cão tinha uma espontaneidade quase adolescente -quase, porque o rigor formal estava todo lá-, Meia-noite soa como um livro forjado pelo estereótipo do escritor: auto-consciente, apaixonado por si mesmo, perdido numa pretensa batalha entre criador e criatura. Galera já havia flertado com um texto mais pretensioso quando escreveu Cordilheira, curiosamente o único de seus outros romances a ter uma voz feminina, mas o foco empregado ali levava o livro para um lugar mais sóbrio, o que não acontece desta vez. As três vozes presentes nesse novo romance tentar abarcar tantos estereótipos e questões contemporâneas quanto as duzentas páginas permitem, o que termina por sufocar qualquer resquício de profundidade.

Para melhor contextualizar; Galera trata aqui da reunião de três amigos porto-alegrenses quando do falecimento do quarto componente de seu antigo grupo. Criadores de um fanzine literário virtual nos idos de noventa e nove (muito como aquele que o próprio autor editava com amigos), os quatro experimentaram breve sucesso nos círculos culturais da cidade, e a ideia se desmantelou meteoricamente. Aurora tomou o caminho da biologia, Antero se transformou num publicitário capitalista voraz, e Emiliano, o mais velho de todos, seguiu como jornalista freelancer. Duque, o quarto e mais talentoso de todos, se manteve na literatura e acabou conseguindo fama e status de grande nome da cena contemporânea brasileira, trajetória ceifada por um latrocínio. É um grupo de personagens curiosas mas, excetuando Aurora, acabam sendo tratados com uma unidimensionalidade bastante sofrível. Antero se transforma numa caricatura de workaholic e pai de família pouco dedicado, Emiliano é sempre tratado como uma pessoa pragmática e bruta, o que pessoalmente me incomoda quando avalio que a homossexualidade do personagem é colocada em perspectiva à partir da maneira como ele não "cede" aos estereótipos que recaem sobre esse grupo, e Duque é sempre representado como o clichê do escritor misterioso e ranzinza.

De novo, quando se colocam essas vidas ao lado daquela existência medíocre porém sempre atenta ao caminho de um pretensa prosperidade que era o protagonista de Cão, os de cá perdem bastante. Não vou fabular em cima do que Galera esperava ou não esperava alcançar com Meia-noite, mas muito me parece um registro levemente biográfico e pessimista de um mundo que existiu e se apresentou como cheio de possibilidades mas agora está quase morto, com apenas uma pontinha de esperança acesa ao longe. A abertura da internet foi, de muitas maneiras, o desvelar de um projeto de mundo e vida mais justos e igualitários, o que anos depois se mostrou apenas ingenuidade. Pode ser uma sátira, no fim das contas, e eu falei um monte de bobagem, mas acho que não. O fato é que aquele Galera, mais próximo das expectativas ingênuas, escreve melhor que o pessimista.

Meia-noite e Vinte (★★★)
Daniel Galera, Cia das Letras, 2016