Leituras de Março

Rolou um atraso imenso nesse apanhado, mas por várias boas causas. Meu último filme foi selecionado pra um festival lá no Rio, o que culminou na minha primeira viagem de avião e um período onde os colegas livros e blog ficaram de folga. Mas enfim, estou por aqui, fazendo o resumo desse tão proveitoso (até demais, nem creio), mês de março.

Ana Marques Martins - O Livro das Semelhanças
Poesia sempre rende as mais curiosas experiências. Surpresa que caiu no meu colo quando fui pesquisar qual seria o livro do mês no Leia Mulheres Recife, estes escritos da poetisa mineira tem algo de muito revigorante. É uma poética querida, amiga de si e de outrem, ainda que muito dura se preciso. Ana divide o livro em três porções que se iniciam numa construção factual daquele objeto livro, passam pela busca de uma outra coisa que ela ainda não sabe o que é, e deságua nessa certeza de incompreensão sobre amor e sobre vida. Me parece uma prato cheio para quem acha que poesia é algo difícil.

Chimamanda Ngozi Adichie - Sejamos Todos Feministas
Não tem muito o que falar sobre esse texto da Chimamanda, tudo já foi dito. Relato interessante e importante, ainda que superficial, sobre o que está na base do feminismo e porquê todos precisam se importar com essa ideologia. Meio Sol Amarelo será o livro do próximo mês no Tamo Lendo, outro ótimo grupo que participo, e começar a entender a escrita da Chimamanda por esse manifesto parece agora ter sido o melhor caminho.

Campos de Carvalho - A Lua Vem da Ásia
Já tem um textinho sobre ele bem aqui. Amei demais.

George Orwell - A Revolução dos Bichos
Acho que foi dos choques mais genuínos que tive nos últimos tempos. Me chame de desinformado o quanto quiser, mas só ao passar das primeiras páginas é que fui realmente descobrir que se tratava A Revolução dos Bichos, que sempre acreditei ser de fato uma história infantil. Alegoria muito voraz sobre os acontecimentos da revolução russa, o texto de Orwell certamente não tem nada de sutil, e provavelmente reside aí o seu atual caráter de grande clássico. Escrito com perceptível anseio de colocar em debate a política, e a maneira como a política é discutida, a história dos animais destituídos de sua liberdade pode ser uma crítica a certo modelo de governo, mas hoje em dia se tornou plenamente universal, e por isso ainda mais triste.

Georges Perec - A Coleção Particular
Uma novela dificílima de aguentar. Revolvendo em torno da coleção de pinturas de um grande entusiasta de arte, Perec usa um sem número de listas, inventários e descrições de telas que são absurdamente enervantes, mas se justificam com clareza e beleza chocantes. Há quem diga se tratar de uma grande piada, mas escrever com tal virtuosismo não é brincadeira. Para quem ler na edição da finada Cosac Naify, o conto que acompanha a novela parece esclarecer muitas das questões que ela propõe. Imperdível.

Will Walton - Tudo Pode Acontecer
Mesmo com as sucessivamente horríveis experiências eu ainda acabo caindo na bobagem de tentar ler livros young adult, geralmente seduzido pelos personagens lgbt. O resultado é geralmente o mesmo: um punhado de frustração com a maneira rasa e esquemática com que as tramas são conduzidas, e a tristeza por pensar que tem um punhado de adolescentes perdendo tempo com isso. Esperando alguém perceber que um livro infanto juvenil pode ser fofo e divertido sem ser completamente inócuo e bobo.

Fernando de Mendonça - 23 de Novembro
Mesmo que eu já não tivesse contato com o autor, a inspiração de Clarice Lispector transpareceria clara desde o início de 23 de Novembro. Estudioso de sua obra, Fernando Mendonça ecoa Água Viva e G.H. num livro curto, mas incrivelmente denso, que felizmente não sobrevive apenas de sua reverência às imagens psicológicas e espirituais de Clarice, mas porque toma isso para si, é o escritor que ele é.

Hanya Yanagihara - Uma Vida Pequena
Desde o fim dessa leitura que eu tento fazer uma resenha completa aqui no blog mas parece que as palavras me faltam, ainda que sejam muitas as coisas a dizer sobre minha relação com Jude, Willem, Malcolm e JB. Odiei e amei todos, alguns mais que outros. Quis que vivessem felizes, mesmo sabendo que não seria possível, porque as vezes é assim mesmo: todo mundo tá nesse mundo pra ser feliz mas nem todo mundo consegue. O texto da Yanagihara nada tem de genial, mas é bastante vivo, pulsante, todas aquelas pessoas são importantes. Já me vi em muitas dores alheias, mas nunca nessa intensidade, nunca com uma dor que parecesse ser tão minha também. 

Aleandro Zambra - Bonsai
Talvez tenha sido a minha não planejada decisão de ler a obra de Alejandro Zambra fora de ordem a maior responsável pela imensa decepção que senti com Bonsai. Não há como não sentir a minúscula novela (que ele de certa maneira rejeita em trabalhos posteriores) como um ensaio muito frágil, ainda que coerente e bem escrito, sobre os temas de identidade nacional e dificuldades amorosas que povoariam os livros seguintes, em especial o fantástico Meus Documentos.

Não sei quando volto, mas tento voltar mais. Beijo, amores!