Enclausurado

Ian McEwan, o inglês que todo mundo acaba chamando de Iuan Maquiuan ou Ian Mequian, mais famoso por Reparação, o livro, que deu origem a Desejo e Reparação, o filme. Não tem desejo no título do livro, ainda que dentro dele tenha bastante. Dele eu só havia lido este citado, e agora tropeço neste esforço mais recente, Enclausurado, o livro que ganhou um curioso hype no mundo literário por ser a) uma piscadela ao universo de Shakespeare, em especial Hamlet e Macbeth e b) narrado por um feto que, dentro da mãe, observa os planos maquiavélicos desta em conluio com seu tio. O Hamlet da questão chega por aí: mãe e tio querem matar o pai desta criatura cujo nascimento se aproxima, para vender sua casa em ruínas, que aparentemente vale alguma porção de fortuna por se tratar de um imóvel vitoriano. O motivo de tanto festejo é relativamente compreensível, já que o uso de uma voz narrativa tão singular e tão bem composta em sua refinadíssima observação de questões geopolíticas, filosofia, moral, e vinhos, e cujo texto remete com muita graça ao rebuscamento de Shakespeare, mas com sua própria carga de humor e ironia bem modernas e marcadas, não são alvos simples de se alcançar, mas a questão é que McEwan parece estar sempre tomando o mais anedótico dos caminhos.

Trudy, a mãe do narrador, é uma personagem relativamente interessante, especialmente quando se perde em questionamentos morais sobre a natureza do que pretende fazer contra aquela pessoa inocente (aí a Lady Macbeth); mas o problema é que ela é provavelmente a única personagem interessante nesse esforço de câmara, confinado a uma casa imunda e despedaçada. Claude, o cérebro por trás do plano, é um vilão caricato e raso da pior espécie, um bufão farsesco destituído de qualquer compaixão e focado em sua rixa infantil com o irmão, outro bobo de marca maior. Filtrados pelo olhar quase cínico do feto, os traços de idiotia dessas figuras ganham, ao menos, uma luz divertida e ácida, mas não é o suficiente, especialmente para mim, cuja única referência de McEwan era aquela coisa fantástica chamada Briony Tallis. Not enough, big boy, come back tomorrow. Tem quem ame, dá pra entender, não é uma experiência sofrível (ainda que eu tenha contado as páginas que faltavam algumas vezes), mas não é um grande McEwan, creio eu. Vou ler mais pra ver se essa teoria tem algum fundamento.

Enclausurado (★★★)
Ian McEwan, Cia das Letras, 2016