Leituras de Janeiro

Começou bem o ano. Pra alguém que não lia quase nada, sete livros em um mês é um feito a se considerar. Tudo bem que os livros eram quase todos bem finos, mas a gente ignora essa parte. Dei uma viajada boa em gêneros e formatos, o que pretendo tentar manter no resto do ano. Vamo junto.

Meu Amor - Beatriz Bracher
Única boa referência que eu tinha da Beatriz era seu roteiro pra O Abismo Prateado, do Karim Ainouz, um dos meus filmes prediletos. Também sabia que seu trabalho mais recente, Anatomia do Paraíso, tinha levado algum prêmio muito relevante, mas parava por aí. Resolvi começar por este Meu Amor, volume interessante de contos sobre as complexidades do feminino e as dificuldades de se enxergar no outro. São pílulas bastante duras em sua investigação do que significa realmente compreender, amar, entender. Não amei, mas é bonito pra caramba.

Dez centímetros acima do chão - Flavio Cafiero
Me mantendo na seara dos contos, e dando início aos trabalho dos Desafio Livrada 2017, peguei esse volume do Flavio Cafiero, premiado com o Jabuti em algum ano recente que não me lembro bem agora. Os contos do Flavio são bem da vibe que eu gosto: urbanos, algo amargos, violentos, mas sem deleitar-se com essa condição. São olhadelas em algo que está acontecendo no apartamento ao lado ou na próxima esquina, e que, talvez nunca soubéssemos, era o ponto de mudança na vida de alguém, bem ou mal. Ali pelo meio do caminho eu achei ele um pouco apaixonado demais por si mesmo mas, bem ou mal, isso acaba funcionando.

14 - Jean Echenoz
Guerra nunca é um tema que me atrai particularmente, mas já pensando na leitura de Vida e Destino que se aproxima, comecei a amaciar esse músculo com esse do Echenoz. Inclusive achei que era um romance mas vai mais pro lado da novela, rápido e cortante. É uma leitura muito dura sobre vidas de jovens franceses destruídas pela primeira guerra, que o Echenoz opta por não construir através de memórias, mas por lampejos de presente, olhadelas secas no desenrolar do embate e das vidas à margem daquela situação. A metamorfose de Anthime e seus colegas me lembrou muito Vá e Veja, filme do Elem Klimov. Mas é isso, compacto, austero, e atento para o absurdo da guerra.

Pedro Páramo - Juan Rulfo
Passei tanto tempo correndo atrás desse livro (impressionante como vive esgotado) que ao finalmente encontrá-lo por mero acaso numa prateleira errada da Cultura duvidei se era de fato momento de lê-lo. Não é uma leitura simples, e também não sei se chamaria de agradável, mas sua complexidade é muito envolvente. Encharcado de alma e sangue mexicanos, o único romance de Rulfo é uma ode muito intensa à memória, e especificamente à memória de seu povo. Através da jornada de Juan Preciado por mundo vivos e mortos em busca da etérea figura de Pedro Páramo, fica bem claro porque este é tido como o grande clássico da literatura mexicana.

Repeteco - Bryan Lee O'Malley
Para algo bem menos complexo, ainda que também bastante envolvido num misticismo muito particular, li este novo trabalho do criado de Scott Pilgrim. Minha quase completa inexperiência com o universo das graphic novels deixa a visão crítica desse gênero meio enevoada, mas o que dá pra afirmar é que eu gostei, menos do que esperava, mas gostei. Bem no finalzinho rola a sensação de ter lido uma grande anedota 'com mensagem', mas é uma experiência divertida. As incursões metalinguísticas do O'Malley funcionam bem, os personagens tem carisma, o traço é agradável, enfim. Deu vontade de ver o que Edgar Wright faria com ela no cinema.

A Resistência - Julián Fuks
Já tinha dado conta da categoria 'vencedor do Jabuti' no meu Desafio Livrada, mas adicionei esse aqui no bolo, porque alguma coisa misteriosa me chamou atenção. Fraternidade e ditadura não são temas que me atrairiam particularmente, mas rolou, e rolou bem. Vai chegando o final do mosaico que é A Resistência e você acha que domou esse livro, que o entendeu, que dominou a linguagem rebuscada e por vezes prolixa, que se perdeu e se encontrou nas divagações sobre fraternidade, maternidade, ideologia e exílio, e aí vem algumas páginas, as seis ou sete últimas pra te dizer que não, este livro não deve e não vai ser dominado. Como Melville em Bartleby, como Borges em Pierre Menard, porque escreve um escritor, que culpas carrega? As avós da praça são seres que resistem. Escrever é um ato de resistência. Tá vendo como rolou? Até as divagações ficaram mais bonitas. Que livrão.

E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto - Rubem Fonseca
E aí, infelizmente, o mês acaba numa nota desagradável. Minha escolha na categoria 'livro com protagonista detestável' para o Desafio Livrada era Lolita, mas acho difícil alguém ser mais intragável que a dupla formada por Mandrake e Gustavo Flávio. Lido para um encontro do clube de leitura que participo (que inclusive tive de faltar), essa novela escrita por Fonseca em 1997 parece sofrer de um problema muito simples: está datada. Seu humor é velho, sua moral é cansada, e no fim das contas seus personagens e seus arroubos de esnobismo intelectual são perfeitamente compreensíveis no universo literário em que vivem, mas nem por isso passam perto de ser agradáveis, ou ironicamente agradáveis. Ao menos o suspense é real, e sustenta as bobagens que essas criaturas não param de tagarelar.

Pois é, janeiro foi um bom mês. Esperando com fé em Jah e David Foster Wallace que fevereiro não me traga nenhum outro Fonseca. Amém.