Leituras de Fevereiro

Fevereiro rolou, mas rolou um pouco menos que Janeiro. Não que eu esteja correndo pra ler, longe de mim, mas é interessante notar que meu volume de ocupação com outras coisas não aumentou, mas os livros diminuíram. Não pode, in the name of the Lawd.

James Franco - Palo Alto
Pra começar, uma surpresa boa: James Franco não é um escritor tão pavoroso como tanto se pinta por aí. Também não é o caso de ser um grande escriba, mas há nos contos desse volume uma compreensão muito bonita do espírito inconsequente que move os adolescentes de Palo Alto, e que ele conhece com tanta propriedade. O filme, dirigido por Gia Coppola uns anos atrás, soa como uma versão um tanto higienizada desse universo do livro, mas é um complemento interessante, se assistido após a leitura.

O Sol é para Todos - Harper Lee
Me pergunto se ainda existe algo a se dizer sobre a herança que a moça Harper deixou para a literatura universal, e a resposta é claramente não, mas isso não me impede de citar uma coisa que ninguém mais sabe, porque apesar de estar no livro, não está nele. Naqueles momentos finais, em que Scout conta para o xerife Tate o que aconteceu com ela e descobre quem a salvou, uma luz se acende dentro do livro e deixa a gente tão cego e tão alegre que minha única reação foi chorar. Mas chorei como não chorava há umas boas semanas -desculpa, eu choro muito, não dá pra fazer um drama maior-, e chorei mais ainda algumas passagens depois, quando Scout finalmente se coloca no lugar do outro e entende que a dor de estar no mundo não acaba no quintal dela. Bonito pra caralho, dona Harper.

A Chave de Casa - Tatiana Salem Levy
Curioso topar com esse livro da Tatiana pouco tempo depois de ter lido A Resistência, do Fuks, porque de certa maneira são livros primos, dialogam partindo de lugares muito parecidos. Tanto lá como aqui temos famílias migrantes, marcadas por um regime ditatorial, e a voz de um filho (aqui filha) do exílio, uma pessoa em conflito com os conceitos de pátria, ancestralidade. No livro de Tatiana, porém, isso se dá através de uma sinfonia de vozes femininas, que exploram também os signos e as complexidades dessa essência, do ser mulher, brasileira ou portuguesa ou turca ou mãe ou filha. Bonito. Me desencorajaram um pouco com os outros escritos dela, mas quero tentar.

Cachalote - Rafael Coutinho e Daniel Galera
Releitura há muito esperada (literalmente, minha cópia passou alguns anos com um amigo), Cachalote deu uma refrescada nos meus motivos de já ter tido Daniel Galera como escritor preferido. Minha relação com ele anda um pouco distante -espero que a gente se reencontre em breve-, mas essa graphic novel, concebida junto com Rafael Coutinho, tem os temas todos que eu amava na escrita dele. Cachalote é um punhado de coisas: é um amor que dói, um amor que acabou e ainda existe, um amor que não sabe bem o que é. E é um não-amor também, ódio por si mesmo, pelo mundo, é nada. Li pela primeira vez assim que foi lançada e me peguei tateando por sentimentos que eu não conhecia assim tão bem. Agora, tantos anos depois, com esses sentimentos um poucos mais claros, ela parece ter ficado ainda mais triste, mas segue bela, e também um belo marco no mundo da graphic novel brasileira.

Contos de Cães e Maus Lobos - Valter Hugo Mãe
Não vou dizer que o mês terminou num tom menor, porque Valter nunca é um tom menor, mas não deixei de ficar um tanto desapontado com estes Cães e Maus Lobos, especialmente vindo de uma experiência tão forte com A Desumanização. O texto do portuga é sempre muito especial; ele tem uma compreensão tão delicada e tão viva do mundo e das pessoas que o habitam que se torna um gênero textual muito específico, uma prosa poética que parece dizer respeito somente a ele. No entanto, os contos compilados aqui, ainda que muito singelos, parecem sofrer todos do mesmo esforço de parecer muito mais belos, e rebuscados, e requintados do que o necessário. Não parece o mesmo Valter de sempre, que brinca com as palavras e as faz suas, mas sim um Valter que se debate com elas e tenta dominá-las à força. São textos bonitos sobre cães, lobos, e infâncias de várias idades, mas certamente não é o melhor momento dele.

Enfim, isso aí. Em março tem McEwan, Gaiman, Kawabata, e sabe lá mais o que vai me dar na telha de ler. Beijo, amores!