Manchester à Beira-Mar

A Vida Acaba

Existe uma coisa etérea, muito difícil de ser precisada, que parece permear todo o cinema (e também o teatro), de Kenneth Lonergan desde os idos de sua carreira. Há quem tente capturar essa coisa misteriosa através da noção de “humanismo”, mas o caminho não parece ser este; não há em Lonergan o sentimento dardenniano que muitos associam com a ideia cinematográfica de exaltação do ser humano e a iluminação de suas capacidades. Se os Dardennes gostam -hoje em dia cada vez mais- de escrever pequenas teses sobre trocas entre pessoas, e a mágica que permeia essas trocas, o cinema do americano parece muito mais interessado em movimentos internos, movimentos corporais que nunca se concretizam. Em Margaret, Anna Paquin estava perpetuamente presa a um movimento de passagem, o corpo congelado pelos próprios desejos não computava com exatidão nenhum dos estímulos que lhe eram oferecidos. Em Manchester à Beira Mar alguma coisa parecida acontece com Casey Affleck, mas talvez de maneira retroativa. Seu personagem parece alguém que já sentiu muito mas acabou afogado por todas essas sensações; e, graças a preferência de Lonergan por desvelar através de mergulhos em sua mente (não necessariamente flashbacks) o que trouxe ele até esse estado, caminha lentamente para um possível restabelecimento.

Para um pouco de contextualização, Manchester à Beira Mar é a terceira incursão de Kenneth Lonergan no cinema, cinco anos depois do fim da batalha travada contra o estúdio a respeito do corte final de seu segundo filme, e até aqui sua obra maior, Margaret. Assim como no anterior e também no primeiro -o ótimo Conte Comigo-, a escrita de Lonergan vai perceber a morte como um convite à revisão minuciosa do que trouxe estas pessoas a estes lugares que elas habitam agora. No caso do soturno zelador interpretado por Affleck, um ataque cardíaco fulminante no irmão de quem ele estava um pouco afastado o força de volta a Manchester-By-The-Sea, cidade litorânea de tradição pesqueira a 40 quilômetros de Boston, onde ele se percebe obrigado a cuidar do sobrinho adolescente e se confrontar com as questões que deixou em sua saída do local. Aí entra a beleza de um trabalho coerente de direção e dramaturgia. Em todos os filmes de Lonergan existe alguma coisa de teatral, no que diz respeito a maneira como ele filma, como controla as emoções do atores, e principalmente como faz as palavras rolarem para fora das bocas.

Manchester é, e isso não se disputa, um filme muito tradicional sobre um homem atormentado que precisa lidar, ou não, com as coisas terríveis que aconteceram em sua vida, mas uma história simples, contada de forma simples, não precisa ser simplista. Existe um universo de coisas acontecendo quando Affleck recebe a ligação informando sobre a morte do irmão e sua voz quebra por meio segundo, ou quando seu sobrinho se desespera por ver um punhado de frangos congelados e pensar no pai morto, ou ainda quando sua ex-mulher, interpretada por Michelle Williams com muita delicadeza, tenta inutilmente reconstruir uma ponte há muito detonada. Há um universo particular em cada cena, cada troca; são os movimentos que a câmera não capta, é o etéreo e incapturável que faz o cinema de Lonergan.