Toni Erdmann

Desde sua estreia em longas com o ótimo e enervante A Floresta para as Árvores, Maren Ade tem dedicado seu cinema a histórias de pequenas vergonhas, humilhações, e dificuldades advindas da incapacidade que alguns seres humanos tem de simplesmente se encaixar. Algumas pessoas não nasceram para compreender as sutilezas de códigos sociais que regem o que deve ser dito e quando dizê-lo, e por isso sua existência se torna algo mais amarga, e por vezes ácida. Toni Erdmann, filme e pessoa dentro do filme, são o passo de Ade numa direção que, sim, continua a exploração dessa incomunicabilidade que nada tem da beleza onírica de um Antonioni e, pelo contrário, bate com força e grosseria, mas com uma nova compreensão de que por mais duras as conexões, elas ainda podem existir sem tantas sequelas.

A partir da clássica trama de uma filha sisuda, mergulhada e sufocada pela burocracia do caminho empresarial que resolveu seguir, se percebendo confrontada pela espontaneidade excêntrica do pai, que chega a investir na criação de um personagem para tentar romper as barreiras que o tempo e a personalidade criou entre os dois, Ade faz um cinema de fôlego, um cinema em que cada sequência é um convite a gastar tempo observando a minúcia que fazem Ines ser quem ela é, e Winfried ser Toni. Toni Erdmann é basicamente uma dramédia episódica de quase três horas, e isso não tira dela os méritos de ser um cinema verdadeiramente emotivo, engraçado, e que em parcos e discretos comentários consegue fazer comentários sociais sobre capitalismo, misoginia, e racismo com muito mais destreza que filmes que se propõem a tal. Em dado o momento, a dupla de pai possuído por seu personagem e filha relutante em aceitar que aquela liberdade também pode ser sua, caso deseje, entram na festa de uma semi-conhecida e apresentam sua versão para 'Greatest Love of All', de Whitney Houston. Assim como cantar forçando os pulmões pode ser um grito de liberdade, pode também ser um grito de desespero.