O Porteiro do Dia

Mesmo nos momentos em que está ansioso, ou chateado, ou triste por qualquer razão, Marcelo sorri. Seu sorriso não é simplesmente um esticar de lábios, mas uma carga de muita doçura e ingenuidade que habita seus olhos, e que não faz frente à sua sexualidade tão pronunciada, decidindo por caminhar lado a lado com ela. O sexo e as pulsões de Marcelo são grande parte do que ele é, e seu corpo, seus olhos, e seus lábios não tem vergonha disso. Não se trata, no entanto, da concepção de liberdade que geralmente surge ao pensar esses personagens tão certos de seus corpos e de seus impulsos; não é uma liberdade festiva, como aquela do sonho que envolve uma erótica viagem de bicicleta pintada em tons de kitsch, mas a liberdade que a todo momento nos cobra que façamos algo de nossa existência, e tal cobrança fatalmente desemboca nas frustrações de um auto-exame.

Marcelo é um jovem de classe média vivendo uma vida algo genérica de ócio e inspiração criativa e ócio, num ciclo que lhe parece muito cômodo e que a narrativa não necessariamente faz questão de condenar, ainda que aponte inconsistências. A fluidez do existir de Marcelo é confrontada pela rigidez do existir de Márcio, funcionário de seu prédio que, por nenhuma razão especialmente delimitada, se torna seu objeto maior de desejo. Pai, marido, e naturalmente muito mais apegado às normatizações da sexualidade, Márcio é como os fantasmas dos aplicativos de pegação, mas existe vida em seus olhos; e talvez seja nesse inflar de figuras tão vulgarizadas, concedendo-lhes necessidades e vontades reais que more a grande beleza de O Porteiro do Dia.

Rachaduras sociopolíticas e sonhos de desbunde à parte, esta estreia de Fábio Leal é uma carta adereçada ao corpo para esclarecer-lhe de sua importância enquanto comunicador; mas se em outros cinemas os aromas e pulsões desse corpo falante seriam tratados como acessórios num arsenal de linguagens que por fim estariam tentando comunicar a mesma coisa, a câmera, a montagem, e principalmente a relação estabelecida por Carlos Eduardo Ferraz e Edilson Silva é fatal em pronunciar que o tempo e a linguagem dos corpos é uma, e se o cinema pode abarcá-la, por que não fazê-lo? Os sorrisos são provas de existir agora, os corpos nus são dicionários. Já os beijos, abraços, e ereções, são apenas o que são.