A Cidade Onde Envelheço

Me parece muito simples tratar as questões de A Cidade Onde Envelheço como gestos de atenção ao movimento migratório do corpo e da mente de suas protagonistas, jovens portuguesas de personalidades diametralmente opostas que tentam a vida em Belo Horizonte. Ainda que parta deste princípio, tendo a experiência real de uma de suas protagonistas como principal força de criação e construção, o longa de Marília Rocha revela um punhado de camadas muito delicadamente construídas que viajam pelos desejos destas pessoas, e estes não se limitam às suas geografias físicas. Também me parece simples dizer que isto se deve a uma "sensibilidade feminina", o que quer que isto signifique. Se Rocha filma com a leveza e respeito que transparece na tela, é porque se trata de uma cineasta compreendendo o tempo e seus mecanismos, e não porque ela é mulher.

O roteiro, escrito em parceria com Thaís Fujinaga, trabalha em impressionante concordância com outro grande trunfo do filme, que é a fotografia suave e algo dessaturada de Ivo Lopes Araújo. Se o texto acompanha essas pessoas em porções, em movimentos elípticos que atravessam as barreiras do tempo em saltos que muito me lembraram o cinema da francesa Mia Hansen-Love e do americano Joe Swanberg em seu desprendimento do que o aqui e o agora significam para uma linha narrativa, a câmera não poderia ser um instrumento de aprisionamento. As imagens de Lopes não estão preocupadas em conter aquelas pessoas dentro de si, mas perceber que elas existem naquele universo, e a elas tudo pertence, intra ou extracampo. No cinema, como na vida, os corpos vão, vêm, atravessam o quadro e se escondem para nunca mais voltar.