Nerve

Lá pelos idos de 2010 a internet já era porção relevante da vida cotidiana, mas só dois ou três anos depois disso, com a popularização das conexões móveis, a rede ganharia status final e fatal de ferramenta inexorável à vida moderna. Antes dos celulares transformarem de uma vez por todas as vivências virtual e real numa coisa só, ainda existiam alguns poucos graus de separação entre o que se fazia, e dizia, na rede, com as experiências que não cabiam lá. Existia também uma sensação verdadeira de comunidade online, que não se traduzia totalmente fora do então estabelecido Orkut e recém popularizado Facebook, ainda que caminhasse nesse sentido a passos largos.

Nesse contexto algo confuso, o Catfish de Henry Joost e Ariel Schulman caiu como uma bomba nas plateias de Sundance. Documentário (ou mockumentário?) tratado com ares de noir e horror que investigava a conexão virtual entre Yaniv, irmão de Ariel, com uma garota de oito anos chamada Abby, o filme explorava com minúcia e apavorante controle climático, a rede de mentiras que ligava seus dois protagonistas através do Facebook. Como geralmente ocorre com os nomes mais bem sucedidos em Sundance, Joost e Schulman se viram capitaneando uma franquia, no caso os terceiro e quarto capítulos de Atividade Paranormal, vendo seu afamado documentário se transformar num programa de enorme sucesso na MTV, e não muito depois este Nerve, aparentemente seu primeiro grande projeto, deu as caras.

Baseado num livro young adult de Jeannie Ryan, Nerve parecia ser material interessante para Joost e Schulman por tocar nas mesmas questões de sedução e perigo que uma vida virtual pode oferecer tão bem exploradas por seu Catfish, mas se em 2012, quando do lançamento do livro de Ryan, esse tema já começava a ficar relativamente cansado, sua relevância, e os caminhos vergonhosamente didáticos que a dupla resolve aplicar na história, minam as várias possibilidades de algo bom surgir no meio da confusão. Não chego a tocar na questão de que Dave Franco e Emma Roberts estão bem longe de parecer e soar como adolescentes recém-saídos das fraldas, num gritante problema de casting que se estende por todo o elenco, mas na questão maior que é a falta de coragem ao lidar com temas tão ricos. Lá pelo terço final, toda a ação divertida e descompromissada dos momentos iniciais foi diluída num discurso tecnoapocalíptico-crítica-social-foda, que lembra os piores momentos do seriado Black Mirror, e traz à tona quão frágil era a construção daquelas pessoas. Mortas ou vivas, o mundo virtual continua sendo o que é.