O Delírio é a Redenção dos Aflitos

Que é o horror se não a finitude? A noção de que nossos corpos chegam até as pontas dos dedos e daí a frente tudo é um mundo revoltoso que pretende nos eliminar de sua face é certamente muito mais aterradora que qualquer monstro que o imaginário possa criar. Durante O Delírio é a Redenção dos Aflitos, a Raquel de Nash Laila é bombardeada como a heroína de um filme de horror, mas todos os horrores são tão palpáveis quanto a penúria de trabalhar com sono, o estalar das fundações de um prédio fantasma, um marido ausente e relapso no trato com a sua família, o pesadelo sobre um corpo em transformação que se faz real quando a personagem encara a si mesma, e tantos outros pequenos horrores.

Martírio, delírio e redenção de Raquel só conseguem existir graças ao rosto de Nash, que faz um trabalho fantástico na condução da viagem pelo universo dessa mãe trabalhadora usando apenas o impacto de um olhar que se perde no extracampo, o que inclusive é porção bastante interessante deste primeiro curta de Fellipe Fernandes. Tantas são as coisas ditas e sentidas longe dos limites da narrativa, que os 22 minutos de filme passam como dez mas soam como 60, dada a intimidade que se estabelece com essa moça. Sua fundação está em ruínas e tudo que ela tem para não sucumbir é o delírio e algum resto de certeza.