Simon Vs. A Agenda Homo Sapiens

Tem gente que envelhece feliz e acha que a soma dos anos é uma coisa muito bonita. De fato é, mas topar com um livro young adult e aproveitar pouco da experiência confere ma nota urgente ao processo de envelhecer. Isso falava com você uns anos atrás, e agora não fala mais, ou pelo menos não da mesma maneira. Creio que a última vez que me aproximei de um ya por questões que não tivessem a ver com trabalho foi nos idos de 2001, quando li os quatro volumes de Harry Potter lançados até então e nossa relação parou por aí (sim, nunca terminei Harry, fazer o quê?), porque comecei a me aventurar por outros ramos da literatura. Passei longos anos afastado dos livros por um sem número de razões, a principal delas sendo a intensidade com a qual o cinema me consumiu, e ao voltar agora, especificamente para um livro jovem adulto, a idade e as experiências se fazem bastante presentes e importantes na experiência. Indo direto ao ponto para ser mais claro: Simon Vs. A Agenda Homo Sapiens é romance de estréia da americana Becky Albertalli, psicóloga infantil especializada em crianças e adolescentes LGBT, e este dado parece explicar muitas questões de sua linguagem e construção narrativa. Não acompanhei os últimos anos de literatura jovem adulta, mas estou ciente que obviamente não é lugar de narrativas complexas e linguagens rebuscadas, mas ainda tomando o distanciamento necessário é muito difícil não se incomodar com a fragilidade com a qual as questões de Simon vão e vem ao longo do livro.

Simon Spier, um rapazinho de 16 anos, morador de um cidade satélite de Atlanta, na Geórgia, que se compreende gay e não tem tantos problemas com isso, mas não pretende sair do armário simplesmente por não ver necessidade. A única vazão de sua sexualidade são os ternos emails anônimos trocados com um rapaz de codinome Blue, que diz estudar na mesma escola e viver questões parecidas com as dele. O arranjo prático e tranquilo de sua vida "desmorona" quando Martin, um colega de classe, flagra uma das trocas de e-mail e passa a chantagear Simon buscando a atenção de Abby, melhor amiga do rapaz. Ou seja, este é o mais velho dos esquemas para um romance de formação direcionado para os jovenzinhos gays de coração puro. Estão lá o protagonista cativante passando por problemas que por uma miríade de razões ele não pode compartilhar com ninguém, seus amigos que já tem questões mal resolvidas entre si, sua paixão aparentemente inalcançável, um perigo ao redor, as tantas referências à músicas e comidas e eventos significativos da cultura americana, e a vida no ensino médio. O sucesso pode ter sido de nicho, mas ainda assim foi muito bem planejado, Simon foi muito mais criado para atender uma demanda do que suprir uma necessidade.

É claro que eu festejo o exponencial crescimento dos títulos dedicados a este nicho (na "minha época" era praticamente impossível encontrar um livro que dialogasse com jovens gays dessa maneira), e especialmente a maneira franca com que Albertalli trata a sexualidade de Simon, deixando de lado o assombro com os próprios sentimentos e transformando isso numa questão muito mais de auto-conhecimento do que de auto-aceitação, mas ainda assim se trata de um livro que parece se contentar com a taxa de fofo e nada mais. Provavelmente estou falando com a voz de um adulto amargo que já esqueceu toda a magia de se apaixonar pela primeira vez e o prazer de ouvir Elliott Smith pensando em alguém, mas talvez só queira que esses adolescentes em formação como Simon sejam expostos à algo que fala com eles, mas também os oferece um pouquinho mais de substância. Não é uma leitura ruim ou aborrecida, apenas bastante esquecível. Se não por outra coisa, vale pelo humor do protagonista e as bobagens que ele, como todo adolescente, acaba dizendo por aí.

Simon Vs. A Agenda Homo Sapiens
Becky Albertalli, Estados Unidos, 2015
Ed. Intrínseca, 272 páginas, 2016