Notas sobre Aquarius

Como é, minha mãe?
Como vão seus temores?
Meu pai, como vai?



Ao sair de casa pra ir assistir Aquarius, coloquei na bolsa o 'Formas de Voltar para Casa', romance do chileno Alejandro Zambra, no qual ele mistura ficção com autobiografia para comentar coisas como criatividade, memória, e os fantasmas que Pinochet deixou em seu país. Havia abandonado o hábito de ler a alguns anos, mas retornei com força total a algumas semanas motivado, veja só, por vídeos aleatórios de booktubers que assistia por acaso na madrugada. Sou um leitor bastante lento, mas ao chegar no cinema já tinha atingido a página 75. Isso não necessariamente teria a ver com Aquarius, mas lá pelo meio do segundo ato do filme me peguei aproximando a prosa de Zambra, e de outros que li recentemente, como Valter Hugo Mãe, Michel Laub, e Daniel Galera, ao filme de Kleber. Não que eles guardem em comum alguma particularidade tão explícita, ainda que nestes quatro citados o peso da família e das heranças que ela nos concede ou tira de nós sejam tão importantes, e no de Zambra mais especificamente a nostalgia parece ser o grande norte que descreve a trajetória do autor, mas por uma ideia de que um livro muito bem escrito não deve ser claro, ou fazer tanto sentido à primeira aproximação. A quantidade de camadas que precisam ser escavadas para que a intenção de um personagem que caminha longamente pelas ruas sombrias de um Chile em violenta ditadura, ou por uma Avenida Boa Viagem numa manhã ensolarada, parecem estar intrinsecamente conectadas a como vamos receber essas pessoas. Pelo menos para mim, se elas são tão fáceis de se ler, pouco me interessam.

O mistério maior de Aquarius, por exemplo, reside muito majestosamente no rosto de Sonia Braga. Não se trata simplesmente de ser uma grande atriz e conceder à sua Clara uma profundidade encantadora, o que ela de fato faz a cada nova discussão, a cada nova música que coloca para tocar em sua vitrola, e a cada fantasma de um passado feliz mas aparentemente cheio de arestas afiadas, se trata de um rosto. Existe um universo inteiro, fílmico e não, que esta a mercê do rosto enrugado de Clara, e se esforça, retorce e reconfigura para se adequar a seus movimentos. Me vêm a mente os dois exemplos mais óbvios, porém mais deliciosamente intensos de todo o filme, que são os embates travados com sua filha Ana Paula, papel da sempre maravilhosa Maeve Jinkings, e com o jovem Diego, uma composição muito surpreendente de Humberto Carrão, popularmente conhecidos por seus papéis em novelas da Globo. Por mais que sejam sequências em que as tensões emocionais brotam e escorrem direções completamente diversas -Ana Paula tem sentimentos mistos em relação aos planos de vida passados e futuros de sua mãe, e Diego é o pior exemplo da fauna classe-abastada-camisa-pólo recifense- elas tem como ponto comum a miríade de sensações que atravessam os olhos de Clara. É uma viagem alucinante da hesitação ao medo ao desprezo a ternura num espaço bastante modesto de planos. É uma operária de cinema -já que ela não acredita ser uma atriz no sentido mais tradicional da palavra- no pico de seu ofício.
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O Som ao Redor era, numa simplificação bastante rudimentar, um filme sobre uma ideia de cidade/sociedade, um esforço criativo em verso livre que se contorcia ao redor de uma miríade de personagens e observava quase clinicamente suas perplexidades frente ao que é viver no Recife de hoje, e como o Recife de ontem moldou esta situação. Assim como boa parte do cinema de Kleber, cuja clara inspiração e devoção ao cinema setentista americano se pronunciava com bastante força em escolhas estéticas e narrativas, O Som era um filme muito duro e implacável com seus personagens, e que raramente cedia num respiro mais terno e sentimental para com aquelas pessoas, o que de maneira nenhuma é um problema; observar aquela cidade, que era a mesma de filmes como Eletrodoméstica, Enjaulado e Recife Frio, exigia uma crueza significativa. Frente à essa configuração, Aquarius realmente surge como um momento bastante novo e curioso na obra do cineasta. Não são o encantamento por um personagem e a filtragem de expectativas através de sua experiência no mundo as novidades mais marcantes aqui, e sim a delicadeza como isso é conduzido.

Clara, jornalista, mãe, viúva, sobrevivente, e sobretudo mulher, é um intenso radar de experiências. Ela absorve histórias, compartilha as suas, ouve discos de vinil e dança sozinha na madrugada, faz amizade com o salva vidas da praia, faz sexo, leva seu sobrinho para passear, e confronta a construtora que planeja derrubar o edifício Aquarius, onde vive sozinha, e com ele a memória de sua vida. O posicionamento político de Clara não está dissociado de quem ela é, ela luta para seguir sendo a mesma pessoa, ela resiste. Eu pontuo especificamente essa questão da visão de Clara como pessoa cujas convicções não estão particionadas como artefatos a serem ativados em momentos oportunos, porque é uma abordagem bastante diferente daquela tão seca da vista n'O Som ao Redor, e de certa maneira um tanto mais interessante. É uma vida tão explosiva e urgente como as vidas de cinema podem ser.
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Julia, discreta e belamente interpretada por Julia Bernat, é uma garota carioca, aventureira, bonita, que vem conhecer Recife à convite de Tomás o sobrinho-quase-filho de Clara. O rapaz apresenta sua ficante a tia, que leva os dois para o aniversário de sua empregada em Brasília Teimosa e conta uma anedota divertida sobre o cano de esgoto de divide as áreas ricas e pobres da praia. Não conhecemos muito de Julia para saber que tipo de pessoa ela é ou o que realmente pretende, já que de todo modo isso não faria grande diferença para a condução da narrativa, porém, em outro momento, quando a família se reúne na sala para pesquisar fotos antigas, Julia fica encantada com a coleção de discos de Clara e pede permissão para reproduzir uma música. Pai e Mãe, de Gilberto Gil, cujos versos usei para abrir este amontoado de impressões. Julia observa terna e ansiosamente a reação de Clara à musica. Clara, observa Julia ali, tão jovem e vulnerável, tão forte, tão tomada por essa música quanto ela, e chora. Conhecemos muito de Julia. Julia é Clara, Julia será a mesma pessoa culta, intensa, sobrevivente, e sobretudo mulher, que Clara segue sendo.

Essa cena, provavelmente a melhor do filme, seguida de perto por seu apoteótico final, me soa como a verdadeira grande celebração da mulher, das lágrimas da mulher, que o filme tem a oferecer. Ainda que esteja sempre às voltas com grandes mulheres, que certas ou erradas em suas convicções sempre estão dispostas a defendê-las, o mundo de Clara acaba sempre indo desembocar nas pressões e expectativas que algum homem força nela. Sejam os parentes, inimigos, ou parceiros, a Avenida Boa Viagem do filme é a mesma que está lá agora e na qual as palavras masculinas sempre tentam soterrar as femininas. Por isso eu reforço a potência deste encontro de olhares. Duas mulheres se olham dentro de um filme e o filme fala. Que bom seria ver mais filmes (sobretudo brasileiros/pernambucanos), onde as mulheres possam se olhar.