Mãe Só Há Uma

Lá pela metade de Mãe Só Há Uma, os personagens principais estão todos dentro de um carro, voltando de um jantar muito importante para o curso de suas vidas, quando a câmera dedica alguns segundos para observar a esparsa movimentação na Avenida Brasil, importante via da cidade de São Paulo. A sensação de perceber como aquela cidade e aquelas vidas seguem existindo em meio a tantas outras (por mais que o plano em questão mostre uma avenida quase deserta), parece potencializar minha impressão de que, em grau muito maior se comparado a seus outros trabalhos, o fatídico e o trivial parecem ser nortes muito importantes para Muylaert no estabelecimento de sua trama. Levemente inspirada no famoso caso do menino Pedrinho, a trama segue a vida de Pierre/Felipe (Naomi Nero, excelente) e sua abrupta transformação quando ele descobre ter sido roubado da maternidade no dia do nascimento e, não fosse isto material suficiente para um bom drama, o rapaz também passa por um processo de autodescoberta sexual.

Depois de um filme tão clinicamente controlado e facilmente palatável como Que Horas Ela Volta?, se colocar numa posição algo mais arriscada, tanto de um ponto de vista temático quanto narrativo/estilístico, parece uma boa demonstração da crença que Muylaert deposita em suas personagens, e que muito geralmente deságua em filmes cuja estrutura pode não ser perfeita, mas que tem uma força inegável emanando dessas presenças. O caso de Mãe Só Há Uma é mais ou menos esse. Pierre é sim um belo personagem, mas os caminhos que o roteiro traça para ele deixam a absorção de seus sentimentos algo confusa (e não complexa); como por exemplo a questão de sua aparente transexualidade acabar se tornando uma suposta, e infelizmente simplista, maneira de atacar sua verdadeira e abastada família. A cena em que ele afronta os pais ao usar uma roupa feminina causou verdadeira euforia na sala de cinema, e me deixou intrigado com as razões para que o público comemorasse tão vivamente. De todas as possibilidades que me ocorreram, que vão desde o prazer em ver um pensamento antiquado sendo ridicularizado até o nefasto escárnio por estar vendo um 'homem que se veste de mulher' numa situação que beira o sitcom, o resultado era sempre a desagradável sensação de que todas as boas intenções do filme haviam parado no campo das ideias e não conseguiam se projetar na tela. Se Que Horas Ela Volta? derrapava aqui e ali num didatismo que de certa maneira era até bem vindo, Mãe Só Há Uma toma o caminho inverso de forma intensa, trabalhando com um tempo elíptico onde poderia sim haver mais desenvolvimento. Não se trata de ser ruim, mas de não dar espaço e respiro à pessoas tão interessantes quanto a irmã e a tia de Pierre, por exemplo, que poderiam ter dado tantas outras camadas ao filme.

Com o drama do protagonista tão enevoado nessa construção, todos os momentos em que podemos observar a vida de seu novo irmão surgem como pérolas preciosas. Joca, tão bem construído pelo iniciante Daniel Botelho como um perfeito adolescente paulista de classe média alta preso em sua bolha social, parece ser a única pessoa além de Pierre cujos sentimentos vertem de maneira genuína, sem qualquer pretensão ou filtro. Aparentemente, a ideia original era que o filme acompanhasse a vida de ambos em paralelo até o momento em que o destino consegue uni-los, e a possibilidade me parece muito interessante. De qualquer maneira, os esparsos contatos que os dois tem ao longo da trama culminam, não tenho medo de dizer, numa das mais belas cenas finais dos últimos anos de cinema brasileiro, e só por ela eu já diria que o trabalho de Muylaert valeu a pena.

Mãe Só Há Uma
Anna Muylaert, Brasil, 2016


We <3 Joca