Lancaster, CA

Durante o último Janela Internacional de Cinema eu tive algumas breves porém proveitosas discussões sobre no que exatamente consistia um filme de lacuna, um filme sem conflito. Talvez fossem as inspirações e referências das pessoas com quem conversei, mas todos acabávamos retornando para a ideia de que a existência de um personagem no mundo, é por si só uma motivação para que ele seja. Naquele mesmo Janela haviam exemplos muito claros disso que tentávamos entender, e todos eles convergiam num ponto comum muito interessante, que era a delimitação do rosto como um território pulsante, onde uma narratividade paralela teria espaço para desenvolver-se.

A Outra Margem, de Natália Tereza, De Terça Pra Quarta, de Victor Costa Lopes, e A Invenção da Noite, de Tomás Van Der Osten eram filmes que existiam a partir de rostos, e de como estes rostos conseguiam se colocar no mundo, de como eles sofriam, como sorriam, e como era absolutamente irrelevante tentar compreender sua jornada. Não se trata de negação da narratividade presente nestes trabalhos, ou de desprezo pela ideia da travessia do tempo/espaço através de passos e marcas bem definidas, mas sim a compreensão de que um filme não precisa ser sobre nada, porque sua existência já serve para isso.

Neste Lancaster CA, por exemplo, Mike Ott parece ir além de uma mera narrativa que nega um conflito, ele parece estar em busca dela, a busca de um rosto, que começa a termina o filme sendo negado ao espectador, e ao surgir se mantêm numa constante dúvida sobre o desejo e o medo de se revelar. Lancaster, minúscula cidade ao sul da Califórnia, é aparentemente um cemitério para os desejos de Cory (Zacharia, roteirista deste e parceiro habitual de Ott), que revive um pedaço de sua vida para alguém que não sabemos quem é, durante um intervalo em seus devaneios sobre a beleza das mulheres finlandesas. Assim como Lancaster, Cory existe, ainda que eu não saiba quem ele é.